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Uso de telas na infância: a realidade brasileira frente ao movimento global

Muito se fala sobre o uso de telas na infância, mas o problema ainda não aponta uma solução definitiva e a recorrência ao tema é fundamental. Recentemente, o governo do Reino Unido publicou orientações rigorosas para limitar o uso de telas por menores de 5 anos. Simultaneamente, aqui no Brasil, esse movimento internacional encontra eco em uma realidade onde os dispositivos já integram o cotidiano desde os primeiros meses de vida, muitas vezes sem qualquer mediação.

Inclusive, o o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), sancionado em setembro de 2025 e em vigor desde 17 de março de 2026, é o marco legal brasileiro que atualiza a proteção de crianças e adolescentes (menores de 18 anos) no ambiente online.

Cenário do uso de tela na infância

Enfim, a necessidade do documento britânico surgiu após a escuta de mais de mil pais, que trouxeram um dado que dimensiona a escala global do problema: no Reino Unido, 98% das crianças de apenas 2 anos já utilizam dispositivos diariamente.

No entanto, o alerta também já dá sinais claros em solo brasileiro. Nos últimos dez anos, o uso de internet e a posse de celulares entre crianças brasileiras aumentaram significativamente, conforme apontam os dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Para se ter uma ideia da velocidade dessa mudança, em 2015, apenas 9% das crianças de 0 a 2 anos usavam a internet; em 2024, esse número saltou para 44%.

Além disso, quando subimos a faixa etária, o cenário se torna ainda mais onipresente. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), 95% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos acessam a rede no país — o que representa cerca de 25 milhões de pessoas. O acesso é frequente, ocorre majoritariamente pelo celular e, em muitos casos, sem qualquer limite de tempo definido pelos responsáveis.

A realidade de pais no controle

As reclamações dos pais são muito similares: a maioria relata enorme dificuldade em controlar o tempo de tela. Contudo, mais do que definir apenas um número de horas, os especialistas reforçam uma mudança importante no debate: o problema central não é apenas o tempo de exposição, mas o impacto acumulado na rotina. Isso inclui a piora do sono, redução da atividade física, interferência na alimentação e a perda de qualidade nas interações sociais.

Na adolescência, esse cenário se intensifica:

Outro ponto importante é que o uso não acontece de forma isolada, mas distribuído ao longo do dia, o que inclui o uso logo ao acordar, durante deslocamentos, refeições e antes de dormir. Esse padrão fragmentado torna mais difícil perceber o excesso, já que a conexão contínua substitui a percepção de “horas seguidas” de uso.

Poucos pais monitoram e os riscos vão além do tempo

Se limitar o tempo já é um desafio, acompanhar o tipo de conteúdo tende a ser ainda mais complexo. Mesmo com a preocupação crescente, poucos responsáveis recorrem a ferramentas de monitoramento. Ao mesmo tempo, dados do CGI.br mostram que uma parcela relevante dos jovens já vivenciou situações negativas online, como conteúdos ofensivos ou experiências que geraram incômodo.

Esse cenário amplia o debate: o risco não está apenas no tempo de exposição, mas também na qualidade do ambiente digital. O aliciamento em redes sociais e sites de jogos atraentes, bem como casos de bullying virtual, são situações que muitas vezes passam despercebidas, explorando a inocência e a imaginação infantil. Além disso, embora a maioria das redes sociais estabeleça idade mínima, na prática existem poucos mecanismos eficazes de verificação.

Celular próprio: autonomia e exposição

A posse do celular individual mudou a dinâmica familiar, ampliando a autonomia digital, mas reduzindo a mediação dos responsáveis. Na prática, isso significa mais tempo conectado em momentos sensíveis da rotina. Essa mudança altera profundamente a relação com as telas: o consumo, antes compartilhado, torna-se individual e contínuo, dificultando a supervisão e tornando mais difusa a fronteira entre uso saudável e excessivo.

Os efeitos aparecem de forma gradual. Do ponto de vista físico, há associação com o sedentarismo e a piora do sono. O psicoterapeuta Leo Fraiman destaca que o uso à noite prejudica o sono e pode afetar a produção do hormônio do crescimento. Do mesmo modo, os impactos atingem o campo emocional e social. Fraiman aponta que o imediatismo digital gera impaciência e irritabilidade: “Quando não gosto de algo, acelero; quando não gosto de alguém, deixo de seguir.”

Impacto cognitivo e decisões públicas

O desenvolvimento cognitivo também é afetado. O neurocientista Michel Desmurget explica que o excesso de estímulos rápidos interfere em funções essenciais como a atenção e a linguagem. Fraiman complementa mencionando a “demência digital”, a dificuldade de aprender e memorizar em uma fase crucial da vida.

Diante dessas evidências, o tema passou a influenciar decisões públicas. No Brasil, o tema avançou com a Lei nº 15.100/2025, que trata do uso de dispositivos em escolas, acompanhada do lançamento de guias oficiais de orientação para as famílias.

Na prática: em busca do equilíbrio

Transformar orientação em rotina é o desafio final. O educador parental Marcus Simas destaca que o caminho mais eficaz é a construção de regras compartilhadas: “Explicar o porquê dos limites ajuda mais do que simplesmente proibir. Quando a criança participa, ela tende a aceitar melhor.”

Infográfico intitulado "Guia Rápido de Higiene Digital". O design é dividido em quatro colunas coloridas com ícones ilustrativos. A primeira (azul) foca na "Hora do Sono"; a segunda (laranja) em "Refeições Livres"; a terceira (verde) em "Substituição Ativa"; e a quarta (azul-claro) no "Exemplo Prático". No canto inferior direito, há uma ilustração de bananas, e o topo é decorado com pequenas árvores estilizadas.

Guia prático de higiene digital: pequenas mudanças na rotina familiar ajudam a equilibrar o uso de tecnologia e a saúde física e emocional.

Entre as estratégias mais usadas pelas famílias estão:

A aplicação dessas estratégias varia de acordo com o contexto. Algumas famílias, como relata a psicóloga Amanda Figueira, optam por adiar o acesso individual, enquanto outras, como a empreendedora Danielle Bevilaqua, utilizam aplicativos de controle para reorganizar hábitos já instalados.

Por fim, Leo Fraiman reforça a necessidade de coerência: “Se o adulto também usa o celular o tempo todo, a mensagem perde força.” O equilíbrio não vem de uma fórmula única, mas de pequenos ajustes e negociações constantes nos momentos-chave do dia.

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