“As crianças seguem os exemplos dos pais, inclusive na alimentação”

“As crianças seguem os exemplos dos pais, inclusive na alimentação”

Para a especialista Andreia Friques, não adianta a família oferecer um cardápio saudável à criança se ela perceber que os adultos têm maus hábitos à mesa

Todos os dias, ou melhor, em todas as refeições, a cena se repete: quando vê um “verdinho”, seu filho empurra o prato e começa a reclamar do cardápio. Cansativo, não é mesmo?

Mas não tem jeito: persistir, variar o menu e dar um bom exemplo são as formas mais indicadas de fazer a criança consumir alimentos mais saudáveis e em quantidade adequada.

As pegadinhas da alimentação saudável

Andreia Friques, nutricionista, enfermeira, mestre em Ciências Farmacêuticas e doutoranda em Ciências Fisiológicas pela Universidade Federal do Espírito Santo, está bem acostumada a acompanhar os dilemas de pais preocupados com a alimentação de seus pequenos.

Seu dia a dia como mãe também é fundamental na hora de auxiliar os responsáveis e a criançada. No entanto, a especialista deixa claro que o exemplo dos pais é determinante para a – boa ou má – alimentação infantil. Afinal, não há como cobrar de uma criança que coma frutas e verduras, se os adultos próximos a ela não consomem esses alimentos.

Para ela, ensinar uma criança a alimentar-se corretamente também é uma forma de educá-la. “As crianças seguem os exemplos que veem dentro de casa. Se os pais comem besteiras e bebem refrigerante o dia inteiro, vai ser difícil que tenham autoridade e argumentos para convencer o filho a comer alimentos mais saudáveis”, enfatiza. Agende uma consulta com um nutricionista pelo serviço Saúde, da PROTESTE.

A especialista concedeu à PROTESTE entrevista exclusiva, mencionando algumas dicas que podem ajudar as famílias a tornar as refeições das crianças mais saudáveis, equilibradas e a evitar conflitos à mesa.

Como deve ser o ambiente na hora das refeições?

O ideal é que a criança vá para a mesa com a família ou um responsável em, pelo menos, uma refeição por dia ou nos finais de semana. É fundamental que o celular, a TV ou o tablet estejam desligados. Assim, ela pode se concentrar na alimentação que está sendo oferecida.

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É recomendável oferecer uma “recompensa” para estimular o consumo de alguns alimentos?

Não recomendo. Desse modo, acabaremos ensinando às crianças a comer algo “ruim” (o alimento saudável) para depois ganhar algo “bom”, quando, na verdade, o que é bom é o alimento saudável.

E quando a criança rejeita uma refeição e diz que quer comer um doce ou biscoito? O que fazer?

Em primeiro lugar, a família não deve ter biscoitos e snacks em casa, para não despertar o interesse da criança. Se a criança souber que há esses alimentos em casa, vai querer. Segundo, é que ela não pode ditar as regras da casa, nem decidir o que vai comer. Esta é uma decisão dos pais e a criança deve seguir o comportamento da família. Agora, se os pais comem besteiras e bebem refrigerante o dia inteiro, é difícil que tenham autoridade e argumentos para convencer o filho a se alimentar bem.

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Até que ponto o pai ou a mãe deve insistir em fazer a criança comer determinado alimento e quando se deve parar?

Isso depende de uma série de fatores. Tem crianças que têm pouco apetite. Contudo, se comem bem, de forma saudável, mesmo que em pouca quantidade, e se desenvolvem bem, considerando a altura e o peso esperados para a sua idade, a família não deve insistir para que elas comam mais.

Isso acontece porque, de fato, elas necessitam de menos comida. É bom ressaltarmos que cada organismo tem necessidades diferentes. Algumas crianças têm metabolismo mais rápido, comem muito e não engordam. Desde que sejam alimentos saudáveis, não há problema nisso.

Do mesmo jeito, outras crianças comem menos. Os pais devem observar e se questionar: o filho come pouco por que não precisa de mais? Ou está passando por alguma dificuldade que pode estar reduzindo o apetite, por exemplo?

A criança também pode estar de birra com os pais, o que é bem comum por volta dos 2 ou 3 anos, por uma questão comportamental. Aí, os pais precisam assumir o controle da situação e não deixar que ela faça chantagens usando a comida.

Já as crianças entre 1 e 6 anos têm apetite reduzido, porque a velocidade de crescimento é mais lenta. Assim, se os pais acabam dando um biscoito minutos antes do almoço, na hora da refeição, a criança acaba não comendo direito.

O que fazer quando percebemos que a criança come muito bem na escola, mas em casa rejeita os mesmos alimentos?

O fato de a criança comer alimentos saudáveis na escola é um ótimo sinal. Mostra que ela tem interesse por aqueles alimentos. Claro que o ideal seria que comesse em casa também, por isso os pais devem continuar tentando oferecê-los.

E quando a ausência de frutas, verduras e legumes na alimentação afeta a saúde da criança, causando prisão de ventre, por exemplo? É indicado usar essa questão como argumento para que ela coma determinados alimentos?

Os pais podem estimular a importância da ingestão frequente de água, explicando seu papel no funcionamento dos nossos rins, na formação do cocô e eliminação daquilo que não é bom para o nosso organismo, por exemplo. Explique os benefícios das frutas e porque você as consome, afirmando que as bactérias do organismo da criança se tornam mais saudáveis.

Fazer os filhos comer bem é uma forma de educar. Assim como dizemos a eles que não podem mentir ou levar um brinquedo de um colega para casa, temos que ensinar a criança a se alimentar. Eles precisam saber que necessitam do alimento, que ele é o combustível para viverem melhor. Quando a criança vai crescendo e chega aos 5, 6 e 7 anos tende a ficar mais motivada com esses argumentos.

O que fazer para a criança ter simpatia por frutas e verduras?

Levar as crianças a feiras livres e para conhecer hortas são ótimas opções de passeio. Outra boa ideia é convidá-las para ajudar a preparar receitas saudáveis, como de uma salada de frutas, e a arrumar a mesa para a família antes das refeições.