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Obesidade em cães: como saber se o cachorro está acima do peso

A obesidade em cães já é considerada uma das doenças nutricionais mais frequentes da medicina veterinária. Além disso, o problema pode se desenvolver aos poucos, o que dificulta a percepção dos responsáveis até que o excesso de peso já esteja comprometendo a saúde e a disposição do animal.

Foi mais ou menos assim com a Princesa.

Num dia de chuva, em dezembro de 2024, a bióloga Carina Matos resgatou das ruas uma cadela magra, com aparência de estar doente. Levou-a para casa, iniciou os cuidados com acompanhamento veterinário e, depois, tentou colocá-la para adoção. Como ninguém a quis, Princesa ganhou não apenas um nome, mas também uma família.

“A Princesa era muito magrela, com falhas no pelo. Logo que passou a ter uma boa alimentação comigo, começou a engordar e a ficar bonita. Mas, depois de ser castrada, foi ficando uma bolinha”, conta Carina.

A castração, de fato, pode contribuir indiretamente para o ganho de peso, explica o veterinário Rodrigo Krhom. No entanto, o procedimento não provoca obesidade sozinho.

“A castração pode contribuir indiretamente porque, após o procedimento, alguns animais apresentam redução do metabolismo e aumento do apetite. Porém, é importante destacar que a castração, por si só, não causa obesidade”, afirma.

Segundo o veterinário, os cães vivem mais, passam mais tempo dentro de casa, gastam menos energia e, muitas vezes, recebem mais alimento do que realmente precisam. Por isso, raramente existe uma única causa para o ganho de peso.

Obesidade em cães tem várias causas

A obesidade canina é uma doença multifatorial. Entre os fatores mais frequentes estão o consumo excessivo de calorias, a oferta constante de petiscos, o sedentarismo, o envelhecimento, a predisposição genética e alterações hormonais, como hipotireoidismo e hiperadrenocorticismo.

“O ganho de peso acontece quando a ingestão energética passa a ser maior do que o gasto energético do animal por um período prolongado. Por isso, é raro existir um único motivo. Na maioria das vezes, diversos fatores acabam se somando ao longo dos anos”, explica Rodrigo.

O estudo mais recente citado na matéria, publicado pela Universidade de São Paulo (USP), em 2020, apontou que 40,5% dos cães da cidade de São Paulo apresentavam sobrepeso ou obesidade. A pesquisa também colocou o Brasil como o quinto país com mais cães obesos, atrás de Reino Unido, Japão, França e China.

Além dos fatores físicos e metabólicos, porém, existe um componente emocional dentro de muitas famílias: associar comida a carinho.

“Muitos responsáveis associam comida a carinho e acabam oferecendo petiscos, alimentos extras ou porções maiores do que o necessário. O organismo não diferencia afeto de calorias. Muitas vezes, aquilo que parece apenas um gesto de carinho repetido várias vezes ao dia acaba contribuindo silenciosamente para uma doença crônica”, afirma Rodrigo.

Por isso, o veterinário reforça que a obesidade não deve ser vista apenas como uma característica física do animal. Trata-se de uma doença crônica que pode comprometer sua saúde, sua qualidade de vida e sua expectativa de vida.

Como saber se o cachorro está obeso ou acima do peso

A dúvida “como saber se meu cachorro está obeso?” costuma surgir justamente porque nem sempre o ganho de peso é fácil de perceber no começo. Afinal, o excesso de gordura pode se instalar gradualmente e se tornar mais evidente apenas quando o quadro já avançou.

Ainda assim, alguns sinais podem ser observados em casa.

“Ao olhar o cão de cima, deve ser possível perceber uma leve cintura logo atrás das costelas. Visto de lado, o abdômen deve apresentar uma discreta elevação em direção às patas traseiras. As costelas também precisam ser facilmente palpáveis, sem exigir pressão excessiva”, orienta Rodrigo.

Infographic showing dog body condition score (ECC) from 1 to 5 with corresponding images and brief notes.

Avaliação corporal. É necessária uma avaliação técnica para diagnóstico de obesidade.

Avaliação técnica

A avaliação visual, entretanto, não substitui o acompanhamento profissional. O veterinário utiliza o chamado escore de condição corporal, uma ferramenta considerada mais confiável do que acompanhar apenas o número mostrado pela balança.

Além disso, mudanças no comportamento podem indicar que um cachorro acima do peso já começa a sentir os efeitos do excesso de gordura na rotina.

Segundo Richardson Zago, especialista em comportamento canino, esses sinais costumam surgir de forma gradual.

“O cão passa a se cansar mais rápido durante os passeios, demonstra menos interesse em brincar, evita correr, demora mais para levantar depois de descansar e pode até relutar para subir escadas ou entrar no carro. Também é comum observar maior intolerância ao calor e períodos mais longos de descanso ao longo do dia.”

Muitas vezes, os responsáveis interpretam essas mudanças como consequência natural do envelhecimento ou imaginam que o cão apenas ficou mais tranquilo. No entanto, em alguns casos, o excesso de peso já pode estar afetando sua mobilidade e disposição.

“Se paramos para pensar, não é muito diferente do que acontece conosco quando engordamos. Falta fôlego e resistência, sendo comum, inclusive, o aparecimento de dores que antes não existiam”, compara Richardson.

Cachorro obeso pode ter a saúde comprometida

Quando o veterinário confirma o sobrepeso ou a obesidade, o controle do peso passa a fazer parte dos cuidados com a saúde do animal.

Segundo Rodrigo, as consequências podem incluir sobrecarga nas articulações e na coluna, agravamento de problemas respiratórios, alterações metabólicas, inflamação crônica e maior dificuldade durante procedimentos anestésicos e cirúrgicos.

No caso da Princesa, justamente um problema nas articulações chamou a atenção de Carina.

“Às vezes, quando ela começava a caminhar após um longo período deitada, mancava. Procurei um veterinário, achando que pudesse ser problema de envelhecimento, mas ele disse que a causa estava na obesidade”, conta.

Além disso, muitos cães obesos podem apresentar perda progressiva de massa muscular. Essa condição reduz mobilidade e força e pode afetar ainda mais a qualidade de vida, sobretudo entre animais idosos.

“Talvez o dado mais importante seja que cães com peso adequado tendem a viver mais e com melhor qualidade de vida. Muitas pessoas enxergam apenas os quilos extras, enquanto nós enxergamos uma doença que acelera o desgaste do organismo”, afirma Rodrigo.

Petiscos e porções extras podem atrapalhar a dieta

Quando o assunto é alimentação, alguns hábitos comuns podem contribuir para o ganho de peso. Entre eles estão oferecer petiscos em excesso, dividir alimentos da refeição da família, não medir corretamente a quantidade diária de ração e permitir que diferentes pessoas alimentem o animal sem controle.

Além disso, pequenos agrados ao longo do dia também entram nessa conta.

“Muitas vezes, o responsável reduz a refeição principal, mas compensa sem perceber com biscoitos, pedaços de queijo, pão, frutas ou outros alimentos ao longo do dia, e o resultado acaba sendo um consumo calórico muito maior do que o imaginado”, alerta Rodrigo.

Durante uma dieta, alguns alimentos podem complementar a alimentação, desde que façam parte de um planejamento nutricional. Legumes menos calóricos, como chuchu, abobrinha e vagem, por exemplo, podem ser opções mais interessantes do que alimentos naturalmente mais energéticos.

Já proteínas como frango ou moela podem ser utilizadas em determinadas situações, mas também precisam entrar no cálculo nutricional.

“O principal erro é imaginar que alimentos naturais não possuem calorias. Mesmo opções consideradas saudáveis podem dificultar a perda de peso quando oferecidas sem controle. O que determina se um alimento ajuda ou atrapalha não é apenas sua origem, mas a quantidade oferecida e o contexto da dieta como um todo”, orienta o veterinário.

Planejando a rotina

Por isso, quando a obesidade em cães já está instalada, apenas diminuir a quantidade de ração por conta própria não representa necessariamente a melhor solução.

Segundo Rodrigo, o emagrecimento precisa ser planejado e acompanhado por um veterinário. Reduções inadequadas podem provocar deficiências nutricionais, perda excessiva de massa muscular, aumento da fome e dificuldade para manter o resultado.

“O ideal é identificar a causa do ganho de peso, calcular a necessidade energética individual do paciente e estabelecer metas realistas de perda de peso. Emagrecer não significa apenas perder quilos. O objetivo é reduzir gordura corporal preservando massa muscular, disposição e qualidade de vida”, afirma.

Além disso, programas de emagrecimento bem conduzidos costumam avançar mais lentamente do que muitos responsáveis imaginam. Em compensação, tendem a ser mais seguros e sustentáveis.

Foi dessa forma que a Princesa começou a fazer as pazes com a balança. Durante a realização desta entrevista, ela ainda estava em processo de emagrecimento.

“Como eu sempre misturei outros alimentos à ração, o veterinário recomendou que eu passasse a usar legumes e proteínas com baixa caloria, além de mudar para uma ração light. E, claro, pediu que eu fizesse mais passeios com a Princesa, para ela se exercitar”, conta Carina.

Exercício também ajuda no controle da obesidade em cães

A atividade física é uma aliada importante no processo de emagrecimento. Entretanto, ela precisa respeitar a idade, o condicionamento e eventuais limitações de saúde de cada cachorro.

“Nos cães obesos, idosos ou com doenças articulares, aumentos bruscos da intensidade podem provocar lesões ou agravar dores já existentes. O recomendado é iniciar com caminhadas curtas e frequentes, aumentando gradualmente conforme o animal perde peso e melhora seu condicionamento físico”, explica Rodrigo.

Além de colaborar com a perda de peso, o exercício ajuda a preservar a massa muscular, melhorar a mobilidade e promover bem-estar físico e mental.

Richardson também recomenda começar por trajetos menores e escolher horários mais frescos para os passeios.

“Também é importante optar pelos horários mais frescos, respeitando sempre o ritmo do animal. Aos poucos, conforme ele ganha condicionamento físico e perde peso, é possível aumentar o tempo e a intensidade das atividades. Outro ponto importante é diversificar os estímulos. Nem tudo depende de exercício intenso. Brincadeiras, atividades de farejamento e enriquecimento ambiental ajudam a aumentar o gasto energético sem exigir um esforço físico excessivo.”

A regularidade também faz diferença. Portanto, não adianta concentrar atividades intensas em poucos dias e abandonar a rotina logo depois.

“O ideal é construir hábitos que realmente caibam no dia a dia da família. Uma consultoria comportamental ajuda a identificar as necessidades do cão e ajustar junto aos donos como encaixar essas necessidades ao ritmo e estilo de vida dos humanos responsáveis pelo pet”, afirma Richardson.

As brincadeiras, acrescenta o especialista, também podem ser distribuídas ao longo da semana de maneira simples e contínua.

Alimentação e rotina precisam mudar juntas

Para controlar a obesidade em cães, alimentação e comportamento precisam caminhar juntos.

“Controlar apenas a dieta, sem mudar a rotina do cão, costuma gerar resultados limitados. Da mesma forma, aumentar apenas o exercício sem ajustar a alimentação também dificilmente resolve o problema. Quando o dono entende que controlar o peso significa oferecer uma rotina mais saudável e compatível com as necessidades naturais do cão, as chances de manter esse resultado a longo prazo aumentam muito. Afinal, o objetivo não é apenas emagrecer, mas proporcionar mais saúde, disposição e qualidade de vida durante toda a vida do animal”, reforça Richardson.

Nesse sentido, a prevenção costuma ser mais simples do que o tratamento.

Controlar as porções, utilizar medidores ou balança, limitar petiscos, estimular atividades físicas regulares e manter avaliações veterinárias periódicas estão entre as principais recomendações apontadas por Rodrigo.

“A obesidade costuma se desenvolver lentamente e, justamente por isso, pequenas correções feitas precocemente costumam ter um impacto enorme na saúde futura do animal”, conclui.

Ração light ajuda, mas não resolve sozinha

As rações formuladas para controle de peso podem ajudar quando usadas de forma adequada. Em geral, elas apresentam menor densidade energética e maior teor de fibras, o que favorece a saciedade.

No entanto, trocar a ração não basta se outros hábitos permanecerem iguais.

“Nenhuma ração funciona sozinha. Mesmo um alimento específico para emagrecimento pode falhar se as porções não forem respeitadas ou se o animal continuar recebendo muitos extras ao longo do dia”, alerta Rodrigo.

Essas rações também costumam custar mais do que as convencionais. Ainda assim, preço não deve ser o único critério de escolha.

“Preço e qualidade nem sempre caminham juntos. Existem produtos com excelente relação custo-benefício e produtos mais caros que podem não ser a melhor escolha para determinado pet. Mais importante do que avaliar apenas o preço é analisar a composição, a finalidade nutricional, a procedência da marca e se aquela dieta realmente atende às necessidades do animal. A melhor ração não é necessariamente a mais cara, mas aquela que entrega segurança, equilíbrio nutricional e resultados consistentes para aquele paciente específico. Por isso, decisões baseadas apenas em marketing ou valor final podem não refletir a melhor escolha para a saúde do animal.”

Na hora da compra, o veterinário também recomenda atenção às informações do produto.

“Na hora da compra, observe a indicação de uso, os níveis de energia metabolizável e a qualidade dos ingredientes. O rótulo pode fornecer informações importantes, mas a melhor escolha sempre será aquela que atende às necessidades específicas daquele cão.”

Creche para cachorro pode ajudar na rotina de atividades

Cães que vivem em apartamento e têm poucas oportunidades de exercício podem ter uma rotina mais sedentária. Nesse contexto, frequentar uma creche para pets pode ajudar, desde que o local respeite as características de cada animal.

“Pode ajudar muito, desde que o local tenha um manejo individualizado, porque nem todo cão deve fazer a mesma atividade ou na mesma intensidade”, explica Daniel Navarro, administrador e sócio do Patinhas Urbanas, creche para pets localizada em São Paulo.

Segundo Daniel, o estabelecimento deve avaliar perfil comportamental, idade, porte, condicionamento físico e possíveis limitações de saúde.

“O objetivo nunca deve ser exaurir o pet, mas proporcionar movimento de forma segura e prazerosa. Quando essa rotina é constante e acompanhada de uma alimentação equilibrada, percebemos que muitos cães melhoram o condicionamento físico e a disposição, e conseguem manter um peso mais saudável ao longo do tempo”, afirma.

As brincadeiras realizadas nesses espaços podem envolver deslocamentos naturais, corridas curtas, enriquecimento ambiental e jogos de farejamento, estimulando tanto o corpo quanto a mente.

“Na prática, percebemos que um cão que trabalha corpo e mente tende a manter um estilo de vida mais saudável do que aquele que apenas faz exercícios repetitivos”, diz Daniel.

Gatos também podem sofrer com excesso de peso

Embora o foco seja a obesidade em cães, os gatos também podem ganhar peso de forma silenciosa.

Segundo Rodrigo, como muitos felinos vivem exclusivamente dentro de casa, pequenas alterações corporais podem passar despercebidas durante meses ou até anos. Além disso, a falta de estímulos ambientais e de oportunidades para expressar comportamentos naturais pode favorecer o sedentarismo e o ganho de peso.

Entre os sinais de alerta estão ausência de cintura, dificuldade para apalpar as costelas e acúmulo de gordura abdominal.

“A obesidade felina não compromete apenas a mobilidade e favorece doenças articulares, mas também aumenta o risco de diabetes e pode causar complicações graves quando ocorre perda de peso muito rápida, como a lipidose hepática”, explica Rodrigo.

Por isso, a prevenção também merece atenção entre os gatos.

“Muitas vezes, quando o excesso de peso se torna evidente, ele já está impactando a saúde e a qualidade de vida do gato há bastante tempo.”

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