A síndrome das pernas inquietas tem abordagem que valoriza o ferro como recurso inicial, garantindo menos efeitos colaterais
Após mais de dez anos, a Associação Americana de Medicina do Sono divulgou uma nova diretriz sobre a síndrome das pernas inquietas (SPI). O documento trouxe mudanças importantes. O ferro intravenoso agora é o tratamento inicial para pacientes com deficiência do mineral. A publicação saiu no Journal of Clinical Sleep Medicine.
A SPI é um distúrbio neurológico que causa desconforto nas pernas, principalmente à noite. Os sintomas variam de formigamento a dores intensas. O problema prejudica o sono e, por consequência, afeta a saúde e o bem-estar de quem convive com a condição.

Ferro passou a ser a principal indicação no tratamento da síndrome das pernas inquietas | Imagem: Pexels
O que é a síndrome das pernas inquietas e como ela aparece?
Segundo o Metrópoles, a doença se manifesta com incômodos que pioram durante o descanso. O movimento traz alívio, mas interrompe o sono. “A síndrome das pernas inquietas é uma alteração de sensibilidade e movimentação. Não precisamos de exames para saber que a pessoa tem a síndrome, mas é essencial que os critérios clínicos sejam bem definidos”, explica a neurologista Letícia Soster, do Grupo Médico Assistencial do Sono do Einstein Hospital Israelita.
Pesquisas mostram que entre 5% e 15% dos adultos podem apresentar o distúrbio. Porém, apenas 2% a 3% procuram atendimento médico. A síndrome é mais comum em mulheres e tende a aumentar com a idade. Em gestantes, pode atingir até 20% dos casos. As principais causas incluem fatores genéticos, problemas renais e deficiência de ferro. Esse mineral é essencial para o equilíbrio da dopamina, neurotransmissor que regula os movimentos.
Por que o ferro é fundamental no tratamento da SPI?
A nova diretriz destaca o papel do ferro no controle da síndrome. “É interessante perceber que passamos a tratar uma condição neurológica com um suplemento alimentar em vez de usarmos um medicamento”, comenta Soster. “Estamos falando de algo mais próximo da nossa fisiologia, que temos naturalmente no organismo, o que reduz os riscos de efeitos colaterais e permite um tratamento mais barato e acessível”.
A recomendação inicial é usar ferro oral por pelo menos três meses. O ideal é ingerir de manhã, junto com alimentos ácidos, como suco de laranja, para melhorar a absorção. Caso não haja melhora ou ocorram efeitos adversos, a alternativa indicada é o ferro intravenoso. “O ferro administrado na veia é mais eficiente, tem menos efeitos colaterais, como constipação ou desconforto gástrico, comuns com o ferro oral, e oferece uma resposta clínica mais rápida”, acrescenta a neurologista.
No Brasil, o acesso ao ferro intravenoso ainda é limitado. “No Brasil, essa forma de tratamento tem cobertura limitada pelos planos de saúde e praticamente não está disponível no Sistema Único de Saúde [SUS] quando a indicação é síndrome das pernas inquietas, o que dificulta o alcance à maioria dos pacientes”, afirma a médica.
Quais medicamentos substituem o ferro quando ele não basta?
As novas diretrizes também mudaram o uso de remédios. Antes, os mais comuns eram os agonistas dopaminérgicos. Apesar de eficazes no início, eles passaram a provocar o “fenômeno de aumentação”, quando os sintomas ficam mais intensos e até atingem outras áreas do corpo. “Percebemos que talvez estivéssemos fazendo um tratamento que, com o tempo, deixava de ser benéfico e até piorava a condição. Isso levou à adoção de alternativas como os medicamentos alfa-delta ligantes [pregabalina e gabapentina], que têm mostrado resultados promissores e menos efeitos adversos”, ressalta Soster.
Esses medicamentos, criados para epilepsia e dor neuropática, mostraram bons resultados também na SPI. Porém, podem causar sonolência. Por isso, o uso deve ser acompanhado por médicos. Em casos graves, opioides em doses baixas são uma alternativa, desde que o paciente seja monitorado de perto para evitar dependência.
Em crianças, os desafios são maiores. Muitos tratamentos eficazes em adultos não são indicados para o público infantil. O ferro oral continua sendo a principal opção, sempre com acompanhamento médico. Além do sono prejudicado, a SPI em crianças está ligada a alterações de comportamento. Isso reforça a importância do diagnóstico precoce.
Há como prevenir a síndrome das pernas inquietas sem ferro?
Ainda não há forma de prevenir a doença. No entanto, hábitos saudáveis ajudam a aliviar os sintomas. Praticar exercícios físicos, manter uma rotina de sono regular e evitar estimulantes são medidas recomendadas. “Muitas pessoas convivem com a síndrome durante anos sem saber que têm um problema tratável. Acham que é normal demorar para dormir devido à inquietação nas pernas ou nem chegam a relatar isso em uma consulta médica”, destaca Soster. “Ainda há um grande desconhecimento, inclusive entre profissionais de saúde, o que atrasa o diagnóstico e o início do tratamento adequado. O impacto na qualidade de vida pode ser enorme, por isso é fundamental ampliar a conscientização”.
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