O sucesso das produções de true crime desperta interesse e polêmica ao mesmo tempo, abrindo espaço para refletir sobre seus efeitos na saúde mental
O fascínio por casos reais sempre atraiu o público. Quando essas histórias envolvem crimes e mistério, geram curiosidade e desconforto ao mesmo tempo. O true crime ganhou força nesse cenário. Ele mistura narrativa documental com suspense. Ainda, sempre há um dilema ético no ar. Isso prepara o terreno para as questões que virão adiante.
Como o true crime cresce e qual o papel do espectador e do produtor?
O true crime cresceu muito nos últimos anos. A empresa de monitoramento Parrot Analytics revela aumento de 63 % em séries documentais entre janeiro de 2018 e março de 2021. Ainda, esse subgênero se destacou como maior e mais rápido crescimento entre os documentários para o The Ringer.
Evelin Costa Rocha, psicóloga infantil e juvenil e especialista em neurociência, explica que as produções se baseiam em entrevistas, inquéritos, registros policiais, documentos e julgamentos. “Além disso, existem sites, podcasts e vídeos no YouTube que contam casos conhecidos ou desconhecidos ao público”, explica. Durante esse avanço, surge a dúvida sobre até onde o alcance impacta emocionalmente quem assiste.
Quais são os impactos psicológicos do true crime?
O consumo desse gênero pode gerar ansiedade, estresse ou pânico. A psicóloga ressalta que isso depende do contexto social, estado emocional, frequência e intensidade da exposição. Se a autorregulação emocional não está bem desenvolvida, a reação pode ser intensa. “Essa autorregulação é a capacidade de compreender, reconhecer e manejar as próprias emoções”, esclarece. E, sem isso, o conteúdo pode intensificar os sintomas e aumentar predisposição a transtornos mentais.
Um artigo na plataforma ResearchGate confirma que assistir muitas notícias negativas eleva o estresse nos espectadores. Outro estudo na Sage Journals identificou que 7 % dos entrevistados com alto interesse em notícias sobre crimes violentos tinham mais medo de violência nas ruas, comparado a outros com baixo interesse.
Evelin diz que, para algumas pessoas, o true crime ajuda a entender os fatos, analisar comportamentos ou aprender formas de proteção. Mas ela alerta que, em indivíduos vulneráveis ou com predisposição, essa exposição pode incentivar comportamentos negativos ou até atos criminosos.
Um estudo de 2024 na Global Mass Communication Review mostrou que programas policiais influenciaram comportamentos violentos verbais e físicos em estudantes da Universidade do Punjab, no Paquistão.
Quem é mais afetado por esse tipo de conteúdo?

Assistir a produções de true crime pode informar, mas também causar ansiedade e gatilhos | Imagem: Grok
Segundo Evelin, crianças, adolescentes, indivíduos com predisposição genética, história familiar de transtornos ou que sofreram traumas, além de pessoas emocionalmente fragilizadas, são os mais sensíveis. Para identificar sinais de impacto, ela indica observar sintomas como falta de ar, insônia, taquicardia, sudorese, náuseas, vômito, medo, terror noturno, catastrofização, ansiedade, irritabilidade e angústia com cenas revividas mentalmente.
De quem é a responsabilidade: de quem assiste ou de quem produz?
A resposta não é simples. Evelin afirma que a mídia exerce grande influência e, às vezes, opta por abordagens sensacionalistas para atrair público. Por outro lado, o espectador deve reconhecer seus limites para evitar sofrer impactos emocionais sem perceber. Muitas pessoas assistem por curiosidade ou influência, mas não têm consciência do efeito emocional. Essa falta de percepção pode gerar desconforto profundo.
Este é o ponto central: a responsabilidade é compartilhada entre quem produz e quem consome. Somente com consumo consciente, produção ética e atenção máxima ao bem-estar mental podemos equilibrar curiosidade, informação e cuidado emocional.
Para ler a matéria completa da PROTESTE, clique aqui.
Já reparou?
A PROTESTE é a maior associação de defesa do consumidor da América Latina e, como parte de seu propósito, está sempre atenta às necessidades do mercado brasileiro. Recentemente, lançamos a campanha Já Reparou?, que visa garantir aos consumidores o Direito de Reparo de seus produtos eletrônicos de forma acessível. A iniciativa busca combater práticas de alguns fabricantes que limitam o reparo de aparelhos ao bloquear o uso de componentes que não sejam originais ou instalados por oficinas credenciadas.
Você pode participar dessa ação e colaborar com essa conquista – acesse o site jareparou.com.br, assine e garanta esse direito. Essa vitória, entre outras coisas, amplia a aquisição de peças e manuais, reduzindo o custo de consertos para o consumidor e incentivando a sustentabilidade.