O uso de inteligência artificial aumenta a discussão sobre cuidados psicológicos, mostrando limites entre tecnologia e processos terapêuticos reais
O uso de chatbots de inteligência artificial (IA) tem crescido no Brasil, especialmente em um cenário em que transtornos de ansiedade e depressão atingem parte significativa da população. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 5,8% dos brasileiros convivem com depressão, enquanto 9,3% sofrem de ansiedade. Nesse contexto, muitos encontram nos recursos digitais um espaço de acolhimento imediato.
Ferramentas como ChatGPT e DeepSeek estão entre as mais utilizadas no país. Segundo pesquisa realizada pelo Observatório Fundação Itaú e Datafolha, 93% dos brasileiros já utilizam alguma tecnologia de inteligência artificial em seu cotidiano. No entanto, especialistas alertam para os riscos de substituir a psicoterapia tradicional por interações com máquinas.
Como funciona a inteligência artificial como “terapeuta”?
Os chatbots de IA foram projetados para elaborar respostas em linguagem natural. Diferente de assistentes tradicionais, eles simulam empatia ao apoiar relatos pessoais. Para muitas pessoas, essa disponibilidade 24 horas gera sensação de segurança. Grazielle Ferreira Ribas, psicóloga e especialista em análise do comportamento, explica: “Também há a questão do anonimato, em que as pessoas acreditam que é seguro falar de temas delicados nesse meio, sem precisar ter medo ou vergonha”.
Entretanto, especialistas destacam que a psicoterapia possui base científica e exige uma relação interpessoal para ser eficaz. A psicóloga enfatiza que “a psicoterapia envolve muitos questionamentos e reflexões. Às vezes, acaba até gerando um desconforto, mas tudo isso é necessário para o nosso crescimento emocional”.
Dessa forma, a interação com IA não promove autonomia nem alta terapêutica. “A inteligência artificial é programada para responder o que o indivíduo quer. Ela tem aquela ‘empatia’ programada, diferente de um psicólogo”, observa Grazielle. Segundo ela, a tecnologia não oferece recursos para ajudar o paciente a lidar de fato com o sofrimento.
IA pode substituir a psicoterapia humana?

O anonimato da inteligência artificial atrai usuários, mas não substitui a psicoterapia tradicional | Imagem: Pexels
Embora a inteligência artificial traga avanços em diversas áreas, na psicologia o debate é diferente. Para Grazielle, não há substituição possível. “A terapia não se trata de uma troca de conselhos ou um bate-papo, mas sim de um objetivo terapêutico”. Ela lembra que apenas profissionais de saúde seguem códigos de ética e são responsáveis por seus pacientes.
A reflexão sobre a dependência tecnológica também tem sido discutida em produções culturais. O filme “Ela” (2013) exemplifica como vínculos com sistemas artificiais podem ultrapassar limites emocionais. Pesquisas em psicologia reforçam que esse tipo de interação pode ampliar sentimentos de angústia, ansiedade e fobia social.
Segundo a psicóloga Joyce Bonfante S. Della Togna, em artigo publicado na revista PROTESTE, é essencial não perder de vista atividades humanas que proporcionam realização pessoal. Ela alerta que a dependência tecnológica aumenta estresse, isolamento e dificuldades de concentração.
Quais os riscos de usar inteligência artificial no lugar da terapia?
Um estudo publicado na plataforma arXiv em 2025 apontou preocupações sobre saúde mental relacionadas ao uso da IA para terapia. Entre os riscos, estão a dependência emocional, o isolamento social e até diagnósticos equivocados.
Grazielle reforça que muitos pacientes chegam ao consultório com “pré-diagnósticos” criados a partir das conversas com chatbots. “Muitos pacientes chegam [aos consultórios] com ‘pré-diagnósticos’, achando que têm uma determinada condição, mas não têm”. Esse tipo de prática pode atrasar o início do tratamento adequado, já que apenas um profissional de saúde tem competência para realizar diagnóstico clínico.
Além disso, a especialista ressalta que o uso excessivo dessas ferramentas pode comprometer vínculos sociais e impactar relacionamentos pessoais e profissionais. Dessa maneira, os chatbots, em vez de aliviar o sofrimento, podem aprofundar a dificuldade de interação no mundo real.
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